
Histórias com a Dança
Meus relatos
Pai e Mãe de Bailarina...
meus pais eram "bailarinos" natos.
Comecei a dançar ainda menina, como tantas outras meninas. mas a imagem que tenho na memória, de minha estreia em apresentações, é a de meu pai, de pé, ao final da apresentação, na última fila do auditório onde realizamos nosso espetáculo, batendo palmas sobre a sua cabeça. Meu pai foi um grande incentivador, mas de uma maneira muito sutil, ao mesmo tempo. Ele era presente no cuidar de suas meninas, ele levava minha irmã e eu ao Ballet, e ia nos buscar, estava sempre presente.
Minha mãe sempre trabalhou fora (é o que tenho na memória), mas costurou novos figurinos lindamente, dançamos com os produtos das mãos de minha mãe. E ela era minuciosa, cuidadosa, caprichosa em tudo o que fazia. Ela também foi muito presente no nosso Ballet. Eles estavam em todos os espetáculos.
E, quando abri minha escola, volta e meia meu pai ia até lá, me cuidar, sutilmente. Ia ver se estava tudo bem. Ele falava que ia beber água benta (água do bebedouro da escola).
Meus pais dançavam lindamente, de parar o salão. Nunca estudaram Dança, era intuitivo pra eles. Tinham uma sintonia admirável, uma leveza que pareciam um só. Esses eram os comentários que eu ouvia. vi meus pais dançarem poucas vezes (eu sou a quinta, de seis filhos, eles já não dançavam tanto quando eu me dei conta de tudo isso), mas as vezes que vi, foi lindo, era mágico.
Meu pai era inventivo nos passos e minha mãe o acompanhava. Minha tia Elair contou que pediu meu pai "emprestado", e foi dançar com ele ... e logo o devolveu à minha mãe. "Vão dançar, não consigo acompanhá-lo, é melhor vê-los dançar".
Agradeço porque tive pais que cantavam e dançavam, a Arte deles era amadora, no melhor sentido, eles amavam música, dança, leitura. Só tenho lindas lembranças, de muitos momentos.
Repensar minha Dança depois de uma lesão
Tive pouquíssimas situações de me machucar na dança.
Enquanto algumas meninas sofriam com joanete, unhas encravadas, distensões, ou outros problemas como joelho e/ou coluna, eu me lembro de uma única torção de tornozelo.
Mas, depois de muito tempo, aconteceu de eu romper meu tendão de Aquiles. Rompimento total.
Depois de um grand jeté, tive de rever as sensações e funções do meu corpo, em cima de um pé que repentinamente deixou de ser minha base.
Sentir-se dependente, a dor do rompimento (que é enorme, queima), o pós-operatório, inchaço, imobilidade necessária, sessões de fisioterapia, uso de muletas, apoio transferido para um dos lados do quadril, e aí apareceu dor, cansaço, leves tombos (a gente põe o pé pra cima e senta). Eu tinha muito receio de ter que refazer a cirurgia.
Mas sabe, que um tempo antes, eu trabalhei com um projeto muito especial, Dança para deficientes: "Dança Sem Limites", da Prefeitura de Ponta Grossa, Paraná. E acredito que, vivenciar por algum tempo, por alguns momentos o dia de pessoas especiais me fez ver com mais leveza a minha lesão, poque eu ouvi deles, meus alunos do projeto: "Profe, você está deficiente, vai passar. Nós somos deficientes."
A Dança sempre me trouxe lições, novas pessoas, novas situações e oportunidades de rever a vida sob um novo olhar.
É interessante como a postura do corpo pode mudar as nossas sensações, influenciar a autoestima, transformar e transmutar. Sim, mudar a forma e mudar a essência, nos levar para a superação, para o belo, para a alegria, para a realização.
Festival Internacional de Cultura na Bolívia
Tive a oportunidade de participar com o Grupo de Dança Emma Sintani deste festival que aconteceu na cidade de Sucre e Potosi, na Bolívia.
Éramos o "Grupo brasileiro", da maestra Emma Sintani, que era boliviana, mas estava no Brasil já haviam 30 anos, então existia uma expectativa muito grande de ver o trabalho dela, pois ela havia sido a primeira bailarina do Ballet Oficial da Bolívia, com grande êxito.
Em setembro de 1992, dançamos as obras de Emma Sintani, coreografias sobre a obra de Milton Nascimento, a "Missa dos Quilombos", "Carmen" de Bizet e "El Amor Brujo", de Manuel de Falla, e "Sonoridades Bolivianas".
A experiência de dançar na cidade de La paz, que está a 3.600 metros de altitude, onde o ar é rarefeito e respirar "cansa", se tornou uma grande superação. O espetáculo se fez, dançamos do início ao fim, cuidando de reservar energia e ar. Alguns sentiram mais, outros menos, mas todos sentimos os efeitos da altitude, e como foi fortalecedor para o grupo levar cada obra, com força, suor e alma. Teatro cheio. Foi emocionante.
Depois de dançar em Potosi, cidade mais alta que La Paz, voltamos a reapresentar nosso espetáculo, a pedido do público, na cidade de Sucre. E como a programação do evento estava fechada, dançamos em horário extra, às 23h, e tivemos teatro cheio uma vez mais. A emoção de estar num grande teatro, lotado, dançando obras de Emma Sintani, trabalhadas sobre música brasileira, músicas bolivianas e também de grandes compositores, foi uma soma de sensações, indescritível. Valeu a pena cada minuto. E só quem estava lá, bailarinos e bailarinas, ou o público, pode sentir e ter na memória tamanha recordação do que foi o "espetáculo brasileiro". E como saiu na crítica especializada: ".... um grupo que tem alma".